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Governo Lula recorre à fórmula ineficaz de elevar impostos em vez de cortar gastos
Enquanto as contas públicas se deterioram, apela-se novamente à estratégia surrada que a sociedade não tolera mais
17/10/2025 11h56 Atualizada há 8 meses
Por: Redação Fonte: VEJA

No Brasil, poucos hábitos políticos são tão persistentes quanto a crença de que problemas estruturais podem ser resolvidos com remendos oportunistas — quase sempre às custas do bolso do contribuinte. O governo Lula segue convicto essa tradição. Diante do desequilíbrio das contas públicas, o presidente exibe um apetite insaciável por arrecadar, preferindo aumentar impostos a enfrentar o custo político de cortar gastos e promover reformas. A Medida Provisória 1.303, que perdeu validade no último dia 9 após ser retirada da pauta de votação pela Câmara, é o exemplo mais recente dessa lógica. O texto alterava regras de tributação sobre investimentos e ativos financeiros, funcionando, na prática, como compensação à decisão do governo de recuar na elevação de alíquotas do IOF, tentada em junho. Com a MP, o Planalto esperava obter 17 bilhões de reais no próximo ano, valor essencial para alcançar a meta de superávit primário de 0,25% do PIB, o equivalente a 34 bilhões de reais. Sem a medida, Lula viu ruir uma das principais fontes de reforço de caixa previstas para 2026. O revés fez o presidente reagir como de costume: buscar novas fontes de receitas. “O cacoete desse governo é aumentar impostos”, diz Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), vinculada ao Senado. “A agenda de Lula agora se resume a correr para tapar o buraco fiscal.”

O Planalto reagiu à derrota com a estratégia de transformar o fracasso em narrativa política, recorrendo novamente ao bordão da luta entre “pobres e ricos”. De uma forma cínica, a MP 1.303 passou a ser apresentada como instrumento de “justiça tributária”, e não de aumento de impostos. Na versão do governo, sua rejeição refletiu a resistência das elites a apoiar medidas favoráveis à população mais carente. Na mesma noite em que o texto saiu da pauta, Lula foi às redes sociais afirmar que a decisão não representava “uma derrota imposta ao governo, mas ao povo brasileiro”, por “limitar políticas públicas e programas sociais que beneficiam milhões de pessoas”.

O discurso ganhou o endosso do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Antes visto por empresários, investidores e economistas como uma voz moderada — ainda que solitária no Planalto — em defesa da responsabilidade fiscal, o ministro parece hoje mais empenhado em financiar as promessas do chefe do que em promover o ajuste necessário nas contas do país. Em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, na terça-feira 14, Haddad classificou a proposta rejeitada pelos deputados como “muito justa” e garantiu que o governo encontrará outras formas de compensar a arrecadação perdida — ou seja, nem pensar em refazer a proposta tendo como premissa o corte de gastos.

RECADO - Câmara derruba MP 1.303: um basta ao aumento de impostos (Lula Marques/Agência Brasil)